A FERROVIA e a FAMÍLIA ARLANCH

Estação Ferroviária de Brotas
O trem faz parte das lembranças de algumas gerações, em particular daquelas que testemunharam sua rápida passagem da glória para o total abandono e o consequente sucateamento. 

É de se lamentar que a curta trajetória do trem, como meio de transporte no Brasil, deveu-se, antes ao atendimento dos interesses das montadoras estrangeiras de veículos que aqui se instalaram no decorrer das décadas de 1950 e 60, do que à necessidade de substituição do sistema ferroviário por outras alternativas de transportes mais eficientes. Afinal, os trens ainda reinam em países europeus, adaptados e integrados aos novos tempos, às novas tecnologias, prestando serviços com status de excelência. Fosse outra a política dispensada à ferrovia no Brasil, outra teria sido a história da saudosa Companhia Paulista de Estradas de Ferro, tampouco assistiríamos à solitária agonia  da estação de Brotas - centro nervoso da economia local, até fins dos anos 60.

Para nós da família Arlanch no entanto, a ferrovia tem um significado que vai bem além de seu papel econômico, como meio de transporte. Antes de tudo, é interessante recordarmos que, não fossem as oportunidades de trabalho que a expansão ferroviária ofereceu a Giovanni Arlanch, recém chegado ao Brasil, nos idos de 1912, certamente teriam, ele a nonna Gisella, retornado ao Trentino, após curta permanência no Brasil, como era o projeto inicial do casal, que ao partir da terra natal, lá deixara a casa mobiliada, com todo o aparato da rotina doméstica.

Giovanni Arlanch prestou serviços em diversos trechos e ramais ferroviários, em várias cidades do Estado de São Paulo, com passagem também por Resende, no Estado do Rio da Janeiro. Isso justifica o fato de apenas os dois filhos mais velhos do casal - Joao e Rogério - terem nascido em São Carlos - SP. Os demais, Max, Aldo e Elza nasceram, em Araras - SP, Barretos - SP e Resende - RJ, respectivamente. Em Brotas, Giovanni prestou serviços nos finais da década de1920, período do "avançamento" como era chamada a obra do novo traçado ferroviário, o que determinou a desativação da antiga estação, situada no perímetro urbano, e a construção da atual, erguida em área desmembrada da propriedade rural de Giuseppe Cassaro.

Posteriormente, foi a empresa de Giovanni a executora da pavimentação em paralelepípedos - trecho de 1 km - da nova estação até a esquina onde depois seria construído o Hospital Santa Therezinha. Naquele percurso, até meados da década de 50, existia uma única residência, construída por João Cassaro, na segunda metade da década de 30.

Assim, vale lembrar aos descendentes de Giovanni Arlanch que a pavimentação em paralelepípedos, por ele construída, até hoje, repousa intacta sob o pavimento asfáltico, ocupando apenas a faixa direita do leito daquela via, no sentido do centro para a estação.
Quem sabe um dia aquele pavimento, por onde tantas vezes perambulamos com os pés descalços, possa voltar à luz, por obra de abnegados pelo resgate da história brotense? A nós resta o consolo de sabermos que ele lá se encontra, resguardado do tempo.

Rogério Arlanch Filho